O Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), da Secretaria Municipal de Saúde de Várzea Grande, deu início, ontem (14), a uma série de encontros quinzenais voltados à orientação, ao acolhimento e ao fortalecimento do tratamento de pessoas com dependência de álcool e outras drogas. A iniciativa é coordenada pelo médico psiquiatra Davi Beber Guimarães e aberta aos pacientes da unidade, familiares e à população em geral.
O primeiro encontro reuniu 24 participantes e teve como tema “O que é dependência?”. Mais do que uma palestra convencional, a atividade foi marcada pela interação entre os participantes, compartilhamento de experiências pessoais e dinâmicas destinadas à identificação de situações que podem favorecer o consumo de substâncias e provocar recaídas.
Como explica o coordenador de Saúde Mental, Weverton Lucas Almeida, a proposta é ampliar as estratégias de cuidado oferecidas pelo CAPS AD, que já desenvolve atividades terapêuticas com profissionais de psicologia, enfermagem e outras áreas. Os novos encontros vão trabalhar temas relacionados à dependência química, fatores de risco e proteção, estratégias de enfrentamento, fortalecimento da autoestima, vínculos familiares e reinserção social.
Segundo o psiquiatra Davi Beber Guimarães, o objetivo é criar um ambiente em que os pacientes se sintam seguros para falar sobre suas dificuldades, reconhecer situações de vulnerabilidade e construir, coletivamente, caminhos para a recuperação.
“Não queremos que seja apenas uma palestra em que o profissional fala e o paciente escuta. Queremos que eles participem, contem suas experiências, reconheçam os próprios gatilhos e percebam que muitas das dificuldades são compartilhadas por outras pessoas. A ideia é construir estratégias de enfrentamento e fortalecer a rede de apoio, envolvendo pacientes, familiares, profissionais de saúde e a sociedade”, explicou.
ENCONTRO - Durante a primeira atividade, os participantes analisaram um caso clínico fictício envolvendo o consumo de álcool e suas consequências financeiras, familiares e sociais. A partir da situação apresentada, foram convidados a identificar fatores que poderiam ter contribuído para o agravamento da dependência e a relacioná-los às próprias experiências.
Também realizaram atividades escritas e receberam exercícios para desenvolver em casa ou no local onde vivem, que serão retomados no próximo encontro. A proposta é estimular a reflexão sobre o tratamento e manter o vínculo com as atividades terapêuticas entre uma reunião e outra.
SUPERAÇÃO E COMBATE AO PRECONCEITO - Um dos momentos mais significativos do primeiro encontro foi o compartilhamento de experiências de pacientes em diferentes fases do tratamento. Entre os relatos, estavam os de duas pessoas que afirmaram estar há seis e dois anos, respectivamente, sem consumir substâncias psicoativas. Outro participante contou que permaneceu oito anos sem consumir, mas enfrentou uma recaída, compartilhando com o grupo os fatores que contribuíram para esse episódio.
Para o médico, essas experiências ajudam a mostrar que a dependência química exige acompanhamento contínuo e que uma recaída não deve ser interpretada como fracasso ou motivo para abandonar o tratamento.
“Temos pacientes que estão há anos sem usar substâncias, que reconstruíram suas vidas e continuam em acompanhamento. Também temos aqueles que enfrentam recaídas e precisam ser acolhidos novamente. O importante é compreender que existe tratamento, que a recuperação é possível e que ninguém deve ser desacreditado por enfrentar a dependência química”, destacou Davi.
O psiquiatra também chama à atenção para o preconceito enfrentado por pessoas com transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas, especialmente àquelas em situação de vulnerabilidade social, sem vínculos familiares ou em situação de rua.
“Muitas dessas pessoas são vistas com preconceito, como se não tivessem futuro ou possibilidade de recuperação. Mas nós acompanhamos histórias que mostram justamente o contrário. São pessoas que precisam de cuidado, respeito, oportunidades e de uma rede de apoio que as ajude a reconstruir suas vidas”, afirmou.
ALÉM DO TRATAMENTO MEDICAMENTOSO - O trabalho desenvolvido pelo CAPS AD integra a Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (SUS) e oferece acompanhamento especializado às pessoas com necessidades relacionadas ao uso prejudicial de álcool e outras drogas.
O atendimento envolve uma abordagem multiprofissional, que considera não apenas os aspectos clínicos da dependência, mas também as condições psicológicas, familiares e sociais dos pacientes.
De acordo com Davi, que atua na rede de CAPS do município desde 2022, o contato com pacientes em situação de maior vulnerabilidade reforçou a importância de ampliar as ações de acolhimento e de cuidado para além das consultas e da prescrição de medicamentos.
“O tratamento não pode ficar restrito à medicação. Precisamos trabalhar também as dificuldades sociais, psicológicas e familiares. Muitos pacientes perderam vínculos, estão afastados do mercado de trabalho e já não acreditam na própria capacidade de recomeçar. Nosso papel é ajudá-los a recuperar essa confiança e construir novas possibilidades”, ressaltou.
A iniciativa conta com o envolvimento da equipe da unidade, desde os profissionais assistenciais até os setores administrativo e de apoio, que colaboram na organização dos encontros e no desenvolvimento das atividades.
PRÓXIMO ENCONTRO SERÁ NO DIA 28 - A programação terá continuidade no dia 28 de outubro, às 9h, na própria unidade do CAPS AD. O tema será definido a partir da avaliação das atividades realizadas pelos participantes no primeiro encontro, com a possibilidade de aprofundar as estratégias de enfrentamento da dependência.
A proposta é que, ao longo das próximas reuniões, outros profissionais também participem da condução das atividades, ampliando as abordagens e incluindo diferentes recursos, como vídeos, debates e dinâmicas em grupo.
A participação é gratuita, não exige inscrição prévia e está aberta a usuários do CAPS AD, familiares e demais interessados. Não é necessário estar em tratamento na unidade para acompanhar os encontros.
“Qualquer pessoa pode participar. Não precisa pagar, fazer inscrição ou se sentir obrigada a falar. Quem quiser pode simplesmente assistir e ouvir. Mas queremos que todos se sintam acolhidos e, aos poucos, à vontade para interagir. O CAPS AD é um espaço de cuidado, de respeito e de oportunidades para recomeçar”, convidou o psiquiatra.
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